Essa resenha tem toques de "opinião/relato pessoal de fã-nática" com informações relevantes e oficiais. Pois bem, hoje os fãs do U2 tiveram uma baita surpresa em plena quarta feira de cinzas - e existe até uma brincadeira bem brasileira que fala que "o ano começa de verdade depois do carnaval": a banda lançou oficialmente, nas plataformas oficiais, o EP Days of Ash (na tradução, "Dias de Cinzas" - literalmente em referência ao dia de hoje).
Para quem não sabe, o EP ("Extended Play") é um formato de gravação musical intermediário, contendo mais músicas que um single, mas menos faixas do que um álbum completo (LP - "Long Play"). Geralmente, possui de 3 a 7 faixas, com duração total inferior a 30 minutos, sendo usado para lançar músicas novas, experimentar sonoridades ou manter o público engajado.
Days Of Ash é um EP altamente politizado, que nos faz remeter aos sons que o U2 fez no álbum War, de 1983 (que trouxe hinos como Sunday Bloody Sunday e New Year's Day). Há também algumas sonoridades que lembram lançamentos mais recentes, como o último álbum de inéditas da banda, Songs Of Experience de 2017.
Observação: se você que está lendo é daqueles que se dizem fãs do U2, mas que ficam reclamando pra eles não focarem tanto em política, sinceramente - você não é fã coisa nenhuma pois fã de verdade conhece a história da banda e a influência política na vida e na música de cada um de seus integrantes.
É um EP sombrio, com conteúdo que eu considero pesado mas é realista pois envolve todos os pavorosos acontecimentos dos últimos tempos. Uma bela resposta aos questionadores de plantão que andaram falando abobrinhas na internet, dizendo que a banda nunca se manifestou sobre o que está acontecendo nos EUA, no Irã, nas guerras de Israel contra a Palestina e da Russia contra a Ucrânia.
As faixas do EP (05 canções e um poema) são sombrias, mas falam também de pontas de esperança para o mundo. Em comunicado, Bono afirmou que as novas músicas têm clima diferente do álbum que a banda prepara para ainda este ano. Segundo ele, as faixas “não podiam esperar” para ser lançadas. “São canções de desafio, consternação e lamento”, escreveu o vocalista, reforçando que tempos “loucos e enlouquecedores” exigem posicionamento.
Vamos de um faixa a faixa, com o que tem por trás de cada canção de Days Of Ash?
A primeira faixa já é uma porrada: "American Obituary" (Obituário americano, em tradução) abre o EP de forma amplamente roqueira, com a pegada que remete às canções de protesto do álbum War (1983) e o estilo único das guitarras de The Edge. A letra é uma resposta à morte de Renee Good, cidadã americana e mãe de três filhos que foi baleada de forma brutal em Minneapolis, em 07 de janeiro de 2026, durante um protesto contra o ICE, departamento de imigração dos EUA que se tornou violento e mal-visto sob a administração de Donald Trump.
Na canção, Bono critica o fato de Renee ter sido rotulada de "terrorista doméstica", questiona a "morte do significado das palavras", da verdade na democracia americana (que diga-se de passagem, a democracia se perdeu no governo atual americano) e ainda faz uma celebração à vida de Renee.
A segunda faixa do EP, "The Tears Of Things" (As lágrimas das coisas, em tradução), é inspirado em um livro do frei franciscano Richard Rohr. Essa canção utiliza os profetas judeus como base para refletir sobre como viver com compaixão em tempos de puro ódio e violência.
Aqui, o U2 imagina um diálogo entre o David de Michelangelo e seu criador, onde o jovem herói se recusa a se tornar um "Golias" para vencer o inimigo. Na letra, Bono faz duras críticas ao fundamentalismo religioso existente no mundo pois "quando as pessoas andam por aí falando com Deus, isso sempre termina em lágrimas".
A terceira faixa do EP, "Song Of The Future" (Canção do futuro, na tradução) é uma homenagem ao movimento "Woman, Life, Freedom" (Mulher, Vida, Liberdade) no Irã.
A quarta faixa, "Wildpeace" (Paz Selvagem, na tradução) na verdade não é uma canção de fato mas sim uma espécie de interlúdio no meio do EP com palavra falada, ou seja, uma spoken word. Trata-se de um poema do poeta israelense Yehuda Amichai, que é lido pela cantora Adeola em cima de uma ambientação criada pelo U2 em parceria com o produtor Jacknife Lee.
A quinta faixa, "One Life At a Time" (Uma vida de cada vez, na tradução), é dedicada ao professor e ativista palestino Awdah Hathaleen, morto por um colono israelense na Cisjordânia em 2025.
A sexta e última faixa desse EP, "Yours Eternally" (Eternamente seu, na tradução) é uma parceria do U2 com o cantor britânico Ed Sheeran e Taras Topolia, que faz parte da banda ucraniana Antytila e lutou na linha de frente da guerra com a Rússia.
CONSIDERAÇÕES SOBRE DAYS OF ASH...
É um EP surpreendente do começo ao fim. Me faz lembrar muito do U2 dos primeiros álbuns pela sonoridade - para quem nunca ouviu, escutem os três primeiros álbuns lançados pela banda: Boy (1980), October (1981) e War (1983). Vocês vão entender do que estou falando e vão se surpreender também.








Nenhum comentário:
Postar um comentário