23 de junho de 2015

A aula de ballet


Disciplina. Rigor quase crueldade. Olhos atentos. Trunfos de um professor de ballet dedicado, exercendo a impossível arte de ensinar além da teoria. Aquilo que provavelmente não pode ser ensinado. E resida no coração do mestre, a vontade, a crença, a esperança do despertar de cada pupilo, do desabrochar da leveza em harmonia com a técnica. E seja maior a frustação de uma candidata a bailarina, descobrir que não há beleza sem perfeição, que não há perfeição sem o erro, que não há erro que não precise de superação e que a superação talvez exija algum sacrifício…

E talvez seja a maior frustação de um professor, sentir que uma de suas meninas (e explique-se que no ballet, mulheres também são eternamente meninas) simplesmente desistiu.

“Nunca te prometi flores”, diz o mestre. Palavras duras que tem o propósito de instigar o corpo, enquanto a aula dançada desafia a a alma a se libertar. Sim, é possível dançar uma aula de ballet!! E desejar estar na barra, diante do espelho, crescendo o tronco chegando ao céu, enquanto as pernas esmeram-se num fondue, ou num balloté, fique tão importante, revele-se tão imprescindível sua boa execução quanto estar no palco numa série incansável de fouettés!

…Como diz a querida professora “O ballet é para aqueles que são diferentes, talvez para os doidos, que gostam de sentir a dor do prazer”. Mas quem sabe o ballet seja para os que já experimentaram então, por um átimo de segundo, essa sensação da música que subverte os sentidos e involuntário faz o corpo entregar-se ao movimento. Talvez o ballet seja a cura para os males da humanidade, talvez seja o ballet a resposta…

Uma hora e meia, duas horas de aula. E a cada dia a experiência é única. O momento do equilíbrio perfeito: corpo, mente e espírito, num balance de oito tempos. E os problemas cotidianos tornam-se pequeninos e as dores cotidianas, inexistentes. Usufruir desse tempo, desse presente, como fosse a sensação de se estar vivo enquanto a música conduz o passo. E a voz do professor que acompanha o movimento, torna-se junto um movimento, melódico, que dá sentido ao abstrato, que tantas vezes traduz o substrato tracejando nas notas o compasso.

Mas isso somente seja possível, ou pelo menos fique mais evidente, quando o professor de ballet também vive do palco, trazendo assim na bagagem sua mágica, sua paixão, seus segredos mais indizíveis. E faz da aula um ensaio da vida real. Da realidade, o sonho de dançar, ir além, perder a cabeça no melhor sentido da palavra, que é pra sentir os pés, as pernas, os braços, o todo, o eterno, o etéreo e já quase enfeitiçado, rodopiar duplas e triplas pirouettes, en dehors, e en dedans, para terminar preciso, iniciar um grand round de jambe…

…Chainés, arabesques, temps Levés já trazem certa melancolia porque anunciam que a aula está próxima de terminar. E resignados, os alunos se reúnem no centro para a reverência. Em seguida os aplausos. Gratidão e reconhecimento ao professor. Um sentimento de perda vem à tona, quase saudade, quase esperança, já felicidade pela simples certeza do dia seguinte, de que existirá a próxima aula de ballet.

Fonte: Revista Dança Brasil (ed. Maio/2015). Texto de Camila Veiga. Foto: Aline Cataldi.

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